Preconceito cordial
18/09/2004
(Nikola Matevski para a `Gazeta do Povo`)
Obra discute as novas formas de manifestação do anti-semitismo

“O anti-semitismo é o hoje o único preconceito socialmente aceitável, que não gera revolta”, diz o jornalista e professor Luiz Milman. Ele é organizador e escritor do livro Ensaios sobre o Anti-Semitismo Contemporâneo, lançado este mês pela Editora Sulina. A obra é um apanhado de ensaios e documentos que dão conta das tendências políticas e sociais daquilo que os autores identificam como novas formas de manifestação do anti-semitismo no Brasil e no mundo.

De acordo com o Milman, trata-se de uma ferida aberta que não foi extinta no período posterior à Segunda Guerra Mundial, quando os judeus foram alvos abertos do extermínio em massa. Hoje, o preconceito estaria retomando força associado a diferentes movimentos políticos e ideológicos.

Estudo das vertentes dessa ressurgência e suas raízes históricas pautam os primeiros três capítulos do volume, reunindo, além dos textos do próprio oganizador, escritos do historiador Francisco Moreno de Carvalho, dos jornalistas e sociólogos Jaime Brener e Cláudio Camargo, e de Alberto Dines, conhecido por suas análises da mídia em livros e no projeto Observatório da Imprensa.

Um dos aspectos destacados por Milman é o enfoque crítico, não só de ordem política, conceitual e histórica, mas também de âmbito ético-jurídico, partindo-se do caso de Siegfried Ellwanger — primeiro caso latino-americano de condenação por prática de racismo. Ellwanger, hoje com 76 anos, foi editor de livros adeptos ao revisionismo hitórico – corrente que freqüentemente tende a polemizar as reais implicações do Holocausto. Um de seus volumes, posto à venda no dia 2 de novembro de 1996 na Feira do Livro de Porto Alegre, desencadeou uma série de processos partindo da comunidade judaica. A defesa, embasada no direto de liberdade de expressão, foi alvo de polêmica e é abordada pelos autores.

O quarto capítulo reúne anexos e documentos referidos na argumentação, incluíndo algumas discussões públicas levadas a cabo pelos autores nas páginas de jornais. A revista Caros Amigos, editada pelo jornalista José Arbex Jr., é analisada e classificada como anti-semita, a partir de artigos como “Seriam os semitas humanos?” e “Nazisrael”. Milman alega que, nos movimentos de esquerda, as recorrentes críticas ao capitalismo e à hegemonia norte-americana na economia e na política mundiais abrem brechas para eclosões anti-semitas baseadas em estereótipos do senso-comum, que associam a cultura judaica ao elitismo e riqueza. “Na esquerda, sempre houve problemas com a questão judaica. Sob Stálin, os judeus eram privados de uma série de coisas”, relembrou o pesquisador gaúcho, destacando que judaísmo era visto como uma cultura incompleta, fadada ao desaparecimento por teóricos da esquerda comunista.

O livro postula, ainda, que o anti-sionismo – crítica ao movimento nacional de libertação do povo judeu e sua emancipação nacional – hoje é inerentemente anti-semita. “Esse tipo de distinção era plausível antes da formação de Israel, mas, agora, essa separação não é mais possível”, explica Milman criticando o pesquisador americano Noam Chomsky, que justamente alegou o contrário em seus textos. “Ele é muito reconhecido em sua área, que é a linguística, mas suas afirmações sobre esses assuntos parecem desprovidas de qualquer conhecimento sobre Israel, ou mesmo a respeito dos EUA”, diz o articulista. A naturalidade com que esses casos são tratados e desprezados representa para o pesquisador o status socialmente conveniente e confortável do anti-semitismo. “Acho essa constatação muito preocupante”, alegou o autor.


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