Velha Senhora
03/11/2004
(Juremir Machado da Silva para o CORREIO DO POVO - Porto Alegre/RS)
Ainda me acho um menino. Mas já freqüento a casa desta velha senhora há 25 anos. Metade da sua existência. Na primeira vez que a vi, eu tinha 18 anos, recém-chegado do Interior, e ela, musa da capital, 25. Fiquei deslumbrado. Como ela era linda à sombra das árvores em flor! Eu a visitei primeiro como estudante sem dinheiro - desejoso de que um dia me recebesse para uma noite só minha -, depois como repórter de cultura, cobrindo-lhe o cotidiano, descobrindo suas qualidades e seus defeitos, e, finalmente, como escritor. Participo, neste ano festivo, com 'Getúlio'. Meu romance (Record) ficou seis semanas na lista dos mais vendidos da revista Veja, algo que somente nove gaúchos conseguiram até hoje. Apesar de uma tiragem inicial (20 mil exemplares) rara no Brasil, já está em sua segunda edição.

Nesses anos todos, admirei muitas figuras que do corpo dessa velha senhora fazem um palco: o escritor de sucesso, carregando o ego nas costas vergadas, o caçador de autógrafos indecifráveis, a garota bovarista, que sonha suplantar a própria beleza com ficção, o poeta fracassado, cujo brilho inverso renasce, o beletrista de fim de semana, mais chato a cada ano, e o ladrão de livros. Sou pela honestidade absoluta. No entanto, o ladrão de livros na praça é uma espécie rara, em extinção, vestígio de um tempo mítico de paixão pela literatura. Sempre o perdôo. Afinal, não sou dono de livraria. Nada me envaideceu mais do que ter visto primeiro um homem, alquebrado, depois uma menina, gata sorrateira, mordendo o lábio inferior, surrupiando uma novela minha. Devia existir a lista dos mais roubados.

Nesta Feira, que completa 50 anos, cheia de lançamentos carregados de promessas e também de obras de ocasião para ganhar dinheiro e enganar leitores incautos, dois livros já conquistaram a minha paixão: 'O anjo de estuque', poesia e fotografia, de Jean Baudrillard (Sulina), e 'A tapas e pontapés', de Diogo Mainardi (Record). Baudrillard e Diogo são os dois grandes mestres atuais da ironia. Pela primeira vez um livro reúne a poesia e a fotografia do pensador Baudrillard. A Sulina já tinha feito o mesmo com 'Tela total', livro de Jean que saiu primeiro no Brasil e só depois na França. Na Feira, como na poesia de Baudrillard, temos 'ruelas levando aos pátios transversais'. Agora, entre nós: como é triste a Feira sem o Décio Freitas.
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