Partículas Elementares
27/12/2005
Michel Houellebecq APRESENTA ASPECTOS DA CULTURA CONTEMPORÂNEA, SEUS LIVROS, PEQUENOS PRAZERES E IMPASSES COTIDIANOS EM VERBETES DE A a Z

ALEMÃO
Na primeira vez em que vi jornalistas alemães, fiquei impressionado com sua seriedade para tratar de literatura. Eles me entrevistaram durante muito tempo, fizeram páginas e páginas de anotações. Eu não estava habituado a isso, e a "Kultur" me fez muito bem. Na verdade tenho um lado sério, e os alemães permitiram que eu o exprimisse plenamente.
BALZAC
É um sujeito que não desistiu do dossiê "situação da sociedade". A ambição é extrema. Sinto dizê-lo, mas não creio que tenha havido uma verdadeira revolução na arte do romance desde então. Proust não é mais um romance. Ele ultrapassou os limites, completamente. Creio que Balzac estabeleceu o gênero de maneira definitiva. E além disso, Balzac é muito útil para mim. Não é bom ser modesto demais. Por isso tento ser um pouco megalômano, dizer a mim mesmo que sou o melhor. Como é cansativo, temos a necessidade de nos sentir um grande escritor de vez em quando, senão nos faltaria energia. Mas, de vez em quando, é bom ter uma pequena crise de modéstia, então lembro de Balzac e pronto, sinto-me muito modesto. É preciso manter um equilíbrio em termos de auto-estima, é preciso sentir-se muito ruim, insignificante, e é verdade que Balzac me causa exatamente esse efeito. Ele revolveu muito mais emoções humanas que eu. Bem, ainda não morri, mas por enquanto sou muito menos bom que Balzac -sem qualquer dúvida. Bem, paro por aqui minha crise de modéstia.

COMUNISMO
Marx foi um autor brilhante, mais que profundo. Ele conseguiu superar as outras correntes socialistas por seu gosto pela fórmula. "A religião é o ópio do povo" é uma fórmula chocante, mais que profunda. Em meio à intensa criatividade dos diversos reformadores sociais do século 19, afinal foi o comunismo que ganhou a aposta e aplicou suas receitas, baseadas inicialmente em uma redução errada à economia .
Não podia dar certo. Por muitos motivos. Um sistema desse tipo não podia funcionar sem mística. E Marx, convencido de ter encontrado o alfa e o ômega na economia, não conseguiu perceber isso. Platão não se exprime muito extensamente sobre o assunto, mas pretende que o comunismo só seria possível no comunismo das mulheres e das crianças. É um ponto de vista que precisaria ser aprofundado, talvez se sustente. Marx chegou a um impasse sobre muitos assuntos. Ele não tem nada a dizer sobre a organização familiar. Nada tampouco sobre um ponto muito difícil, é verdade, mas fundamental: a motivação dos produtores. O que faz alguém trabalhar? O liberalismo tem uma resposta simples: é para ganhar mais dinheiro que o vizinho. Sobre essa questão o comunismo é absolutamente seco. Resultado: as pessoas não trabalhavam nos países do Leste.
Politicamente, a solução chinesa de sair disso sem nada dizer não é ruim. Regra geral, somos muito negativos com a hipocrisia nesse tipo de terreno. Pode ser uma boa fórmula manter as palavras, manter os rituais e mudar tudo.
DEPRESSÃO
É a doença moderna por excelência -acabou-se a histeria. Mas é apenas um começo: todo mundo acabará deprimido a partir de certa idade. Estritamente não há nada a fazer, porque o nível de exigência dos humanos em relação a sua própria vida vai continuar aumentando, mas não as capacidades de realização. Talvez haja uma esperança química. Não usei muito isso em meus livros, mas gosto quando se fala em liberação de neurotransmissores.
A depressão é um preço indispensável a pagar pela sociedade que as pessoas querem ter. É preciso admitir que uma boa proporção seja depressiva e que ao fim todo mundo o seja para poder ter tido uma vida suficientemente interessante antes. Na linhagem dos autores depressivos, certamente sou aquele para quem isso mais se banalizou. Em Beckett, ainda há uma certa nobreza da depressão. Daí certos gestos patéticos como distribuir seu Prêmio Nobel aos mendigos.
Para mim, é a situação normal do animal frustrado, que se deprime, que fica no fundo da jaula, que se coça... Não é sequer um tema, é um pano de fundo, que emprego sobretudo para o narrador. A vantagem é que muitas vezes os deprimidos são extremamente engraçados. Para ter um olhar humorístico e lúcido sobre o mundo, não há nada como um bom deprimido. Sou muito ligado a esse personagem de narrador depressivo. Talvez excessivamente.


ESPANHA
Fui à Espanha num impulso muito fraco, e acabou sendo um lugar da Europa muito interessante. Onde é bastante fácil saber muitas coisas porque as pessoas têm menos pudor que nos outros países que conheço. Elas contam sua vida de maneira muito direta. Um certo realismo latino também persistiu, que faz as pessoas se enganarem menos sobre os objetivos da vida, sobre a importância real do dinheiro, da saúde... Essa espécie de apreciação direta e honesta me agrada bastante.E depois tive a impressão de que é um país não estabilizado, onde subsistem diversas contradições. E devo admitir que, como escritor, me realizo em lugares onde as contradições florescem. É um pouco o lado cruel do escritor -que eu tenho.


FEMME (Mulher)
Meus problemas com as mulheres não vão melhorar. Com freqüência as mulheres têm dificuldade para aceitar a negação pura, e o fato de haver cada vez mais leitoras cria uma pressão dissimulada a favor da positividade. Mulheres geralmente penalizadas me perguntam com freqüência: "Você acha a vida tão decepcionante assim?". Sou obrigado a responder que sim, eu não gosto da vida, não gosto da maneira como é organizada. Mas só posso dizer que sinto muito.
A censura mais profunda que as mulheres fazem a meus livros é a de que eles apresentam um discurso totalmente desesperado, e nada posso objetar, não posso sequer prometer que isso vai melhorar nos próximos livros. O fato de uma leitura desesperante ser profundamente revigorante é um argumento que as mulheres às vezes conseguem entender, mas nem sempre; às vezes elas querem uma coisa mais simples.


GAUCHE (Esquerda)
Tenho uma objeção que acho muito misteriosa: quanto mais governos de esquerda, maior o controle social. O tabaco é um exemplo espetacular. O fato de os não-fumantes terem direitos é uma idéia bem esquerdista. É um problema porque a gente acaba -e não era exatamente esse meu ponto de vista no início- apreciando os países liberais de merda onde não há leis, onde a gente faz o quer desde que tenha grana...
O nível de controle social não é extensível ao infinito, ou então é preciso mudar a biologia. Eu quero muito não ter vontade de fumar, mas preciso de uma operação no cérebro -não sou obrigatoriamente contra, mas impor normas de vida sem satisfações reais em troca... Não se deve ir longe demais nesse campo.


HUMOR
É um tema a que recorro abundantemente em meu próximo livro. Qualquer coisa pode ser tratada com humor ou de maneira patética. Um de meus trechos preferidos dos meus livros é quando Walcott explica a Djerzinski que, no fim das contas, o humor não serve para nada. "Cortesia do desespero" é uma fórmula perfeita para o humor.
Mas, a não ser que nos calemos, acabamos deixando de ser corteses. Não se deve exagerar na cortesia, não se deve ser cortês demais quando realmente se quer fazer um bom livro. O humor não deve ter a última palavra. Falo do ponto de vista do romance, mas é verdade que na vida cotidiana é uma vantagem apreciável, ele azeita consideravelmente tudo, torna viáveis situações insustentáveis.


IMAGINAÇÃO
Idealmente, não há necessidade de imaginação. Para escrever um poema, qualquer coisa convém, qualquer objeto serve, por mais banal que seja, não importa a situação. Não há necessidade de imaginar coisas que não existem. Para um romance, pelo contrário, não creio que eu tenha jamais encontrado um único fato real diretamente utilizável, sempre é preciso falsificar.
Gostei muito de "A Sangue Frio", livro cuja regra era selecionar apenas material real, mas eu não teria sido capaz de escrever tal livro, não teria conseguido me impedir de acrescentar anedotas. Utilizo a imaginação sem pensar, mas tenho consciência de que não é a melhor fórmula, porque o estado poético em que tudo, absolutamente tudo, surge como material diretamente utilizável é sem dúvida o mais invejável.

JOIE (alegria)
Eu gostaria muito de fazer alguma coisa com alegria, mas teria de fazer algo que não fosse literatura. A exaltação temporária, tudo bem, o prazer também, mas alegria! Existe um lado que desencoraja a descrição. "Jesus, minha alegria": também não penso que a música seja o veículo ideal. Fora a "Missa em Si", que é totalmente trágica, Bach sempre me entediou um pouco. A pintura pode descrever um estado de felicidade, os pintores da Idade Média, por exemplo.
André Breton diz que escreveu muito poucos poemas porque raramente era alegre. Ele escreveu poemas em momentos de intensa alegria. É verdade que a alegria não é de modo algum inacessível à poesia. É possível escrever um poema de pura alegria. Na arte, fora a poesia e a pintura, não vejo como.
KITSCH
Idealmente, eu deveria conseguir me tornar kitsch. Quando realmente tem êxito, a arte consiste em produzir novos clichês, portanto se o que faço verdadeiramente tem êxito deveria ser considerado uma fonte de futuro kitsch. Sim, esse seria o verdadeiro êxito. Um novo tipo de kitsch depressivo, talvez. Tenho grande esperança.


LIRISMO
Tenho a impressão de que as pessoas não ousam muito falar do meu lirismo. Elas preferem falar do meu humor. Eu mesmo, aliás, não ouso muito falar dele porque me parece realmente indecente. Diria apenas que há necessidade dos dois, a vida comporta os dois. Mas o lirismo deve ter a última palavra.

MORAL
Tenho a pretensão de poder fazer um julgamento moral de qualquer coisa. Não que eu me considere bom. Creio que, como todo mundo, considero-me exatamente no centro e julgo as pessoas boas ou más conforme elas sejam melhores ou piores que eu. Não paro de fazer julgamentos morais sobre todo mundo em minha vida. No âmbito de um romance é mais difícil porque começamos a buscar desculpas. Descrever um personagem totalmente sacana não é factível além de um certo número de páginas. O que é uma constatação moralmente deprimente. O romance não é decididamente um gênero moral. Todo mundo acaba mais ou menos por se tornar medianamente simpático ou medianamente antipático.

NADA
O nada não é kitsch. É um dos problemas da recusa do kitsch, aliás: só apreciamos o nada. É verdade que meu narrador típico está muitas vezes na posição de um esquiador entre buracos de nada. E, bizarramente, ele não cai. Concretamente, na vida, me dou bastante bem com o nada. Eu o domino bem, ele não me causa medo. Estou habituado a evitar as zonas de nada.

OBSTINADO
É minha qualidade, minha única qualidade, de fato. Quando sinto que posso terminar uma coisa, não a abandono. Embora eu trabalhe muito, não sou trabalhador por natureza, tenho um fundo preguiçoso muito real. Também não sou corajoso. A obstinação pode substituir o gosto pelo trabalho, pode substituir a coragem, pode substituir quase todas as outras qualidades.


PLEURER (Chorar)
Confesso que gosto muito quando as pessoas me dizem que choraram com meus livros. Elas dizem isso muito raramente, pois o pudor tornou-se muito excessivo. Mas é muito simples chorar, faz bem à saúde. É curioso: é uma coisa que só tem vantagens e que nos proibimos. No fundo, não sei realmente por quê.

Q - CUL (sexo)
Já não falei demais sobre isso? Dizem que há sexo demais nos meus livros. Não acho que haja tanto assim. Tentei compreender por que as pessoas tinham essa impressão. Sem dúvida por causa da inconveniência. O sexo é tratado de maneira inconveniente ou chega de maneira inconveniente. A montagem sem transição dá essa impressão: não há preparativo, o sexo chega um pouco brutalmente. Mas creio que é sobretudo o fato de ser sexo frustrado o que mais chocou as pessoas. A impressão de obscenidade é muito mais forte numa cena de sexo frustrado. E ainda não fiz de tudo: algumas ereções insuficientes, mas nada de cenas de verdadeira secura vaginal... Eu poderia ter feito muito mais frustrado. Poderia descrevê-lo de maneira totalmente catastrófica, se quisesse. E, se me irritarem, o farei!

RELIGIÃO
Continuo pensando que deveria haver uma. Uma sociedade não pode avançar sem. Dito isso, não tenho uma idéia nesse sentido e não creio que terei. É uma das bases fundamentais de meu pessimismo, na verdade: a impossibilidade de uma religião diante do estado dos conhecimentos. É totalmente evidente que os seres humanos não são ligados uns aos outros. Constatação trágica que me sinto incapaz de superar.

SUPERMERCADO
Finalmente, a distribuição é o que o século 20 terá feito de melhor. Podemos discutir infinitamente para saber se era melhor viver antes, mas indiscutivelmente é melhor consumir nos dias de hoje do que jamais foi. É incrivelmente bem organizado. A última vez que estive em Paris, era a Rádio Monop", e fiquei imediatamente feliz, gosto de sua linha de produtos, sinto-me verdadeiramente bem num Monoprix.


TURISMO
Devo admitir que nisso o predomínio dos alemães se justifica. Muitas vezes, nos hotéis, várias agências de viagens estão presentes -francesas, inglesas e alemãs-, e realmente o programa alemão é mais bem feito. São ofícios interessantes esses do turismo, porque as pessoas vêm para ser felizes, e às vezes não o são. Finalmente, fora as putas que estão diretamente em contato com uma demanda de felicidade, creio que os profissionais do turismo estão entre as pessoas que sabem mais sobre o que pode ou não tornar as pessoas felizes.

ULTIME (Final)
Tenho bastante medo de não ter um objetivo final. De me resignar às minhas limitações. De me dizer que fiz o que pude, que todo mundo é limitado, eu também. Ficamos mais modestos, buscamos simplesmente nos contentar conosco por enquanto. Acabamos entendendo que isso não dura muito. Agora estou num momento de grande satisfação comigo, imediatamente depois de terminar um livro. Afinal, isso dura um mês, dois, não mais. Eu gostaria muito de não ter necessidade de criar.

VERDADE
É extremamente raro que um fato verdadeiro seja diretamente explorável. Sempre é preciso modificar para depurar.
A realidade é muito caótica, e tenho a impressão de ser principalmente um autor caótico, alguém capaz de pedaços bem grandes de real, e no entanto não, não há nada que seja diretamente explorável.

X (Filme Pornô)
Na verdade, não está certo. Na realidade, a sexualidade não é pornô; os filmes pornôs são pornôs. Existe uma desproporção muito nítida entre o aspecto visual insignificante dos órgãos sexuais e as sensações táteis, que não são insignificantes. Não é uma boa idéia fazer filmes. A literatura continua sendo melhor para o sexo.

WOITURE (Weículo)
É verdade que tive uma forte experiência na primeira vez que lavei meu carro. Eu tinha 45 anos, e senti que afinal me tornara um homem. Era um rito básico que eu realizava um pouco tarde, mas a partir daí eu fazia parte dos adultos europeus.

YOUNG (Neil)
Para mim, é um grande modelo de falta de rigor. Ele segue sua intuição, e afinal quase tudo é bom -até seu disco de jazz, o que não deixa de ser surpreendente.
E depois ele usa bem o dinheiro que ganhou a mais, para as crianças deficientes, creio. Gosto muito dele. Talvez seja o único cantor que me faz realmente chorar, de vez em quando.

ZARATUSTRA
Nietzsche inaugurou a desenvoltura engajada, o posicionamento. Em vez de se comportar como o honesto discípulo que era e completar a obra de Schopenhauer, ele se colocou numa posição que o leva a um franco absurdo. Por exemplo, fingir que prefere as reduções para piano de Wagner ao próprio Wagner. É evidentemente grotesco.
"Assim falou Zaratustra" não é tão bom, de qualquer modo. É um pouco poesia fim de linha. Peço desculpas por dizer isso tão claramente. Tem um certo sentido de encenação, de espetáculo, poderia dar um bom filme. Mas, do ponto de vista do lirismo, não está verdadeiramente à altura. Isso se vê ainda melhor na patética imitação de Gide, "Os Frutos da Terra", que é uma droga. Nietzsche é muito melhor em "Além do Bem e do Mal". Indiscutivelmente um grande livro, super bem escrito. Mas um livro que é moralmente ruim e filosoficamente insuficiente. Faz tanto tempo que falo mal de Nietzsche que acabei simpatizando. Gostaria muito de encontrá-lo, por exemplo, em outro mundo.
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Este texto foi publicado originalmente na revista francesa "Les Inrockuptibles".
Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves.


HOUELLEBECQ E O ÓDIO
Foi com seus romances "Partículas Elementares" e "Plataforma" que Michel Houellebecq, 47, ficou conhecido internacionalmente e varreu o mercado literário francês. Polêmicos e de difícil classificação, os livros levaram o autor a ser tachado de niilista, fascista, racista, reacionário e imoral. O autor, que nunca procurou evitar polêmicas, sempre se mostrou disposto a combater o politicamente correto. Com humor cortante, faz poucas concessões. Para os críticos, deriva muitas vezes para preconceitos sexuais, "pseudomeditações" científicas e para uma literatura de apelação. Em suas obras há descrições de cenas sexuais, explícitas. O escritor critica dogmas literários e utopias libertárias e foi acusado de incitar o ódio racial e criticar o islamismo. Já se situou várias vezes a favor do positivismo de Auguste Comte.
Houellebecq é o pseudônimo de Michel Thomas, que nasceu em 26 de fevereiro de 1958, na ilha de Reunião (Departamento de Ultramar da França). Estudou agronomia e se formou engenheiro em 1980. A partir de 1985, publicou poemas na "Nouvelle Revue de Paris".
Houellebecq foi acusado na França por três organizações islâmicas e pela Liga dos Direitos do Homem de injúria racial e incitação ao ódio religioso contra muçulmanos. Em declarações dadas à revista "Lire", ele havia dito que "o islã é a religião mais idiota do mundo". Mas foi considerado inocente. A sentença se baseou no princípio de liberdade de expressão. Houellebecq foi defendido publicamente por outros escritores, como Salman Rushdie.
Antes de ser absolvido, Houellebecq disse que "jamais manifestou o menor desprezo pelos muçulmanos, mas sempre teve desprezo pelo islã". Atacou ainda as religiões monoteístas e seus livros sagrados, que, segundo ele, são "textos de ódio".
O escritor recebeu, em 2002, o International IMPAC Dublin Literary Award, um prêmio de 100 mil (cerca de R$ 273 mil).


CONTRA O MUNDO, CONTRA A VIDA
O livro mais esperado deste ano na França, lançado em agosto, foi de Michel Houellebecq. "La Possibilité d'une Île" (A Possibilidade de uma Ilha, Fayard, 485 págs., 22 - R$ 59) foi manchete nas principais publicações da imprensa francesa. Para o jornal "Le Monde", é "sem dúvida o mais bem acabado de todos os seus romances".
O livro é um híbrido de ficção científica e crônica moral da sociedade, uma fantasia que aborda a clonagem humana e especula sobre o destino da humanidade. Dois mil anos no futuro, vivem Daniel24 e Daniel25, os clones de Daniel1. Este, o personagem principal, é um autor que ficou rico escrevendo histórias anti-semitas, misóginas e anti-árabes.
O livro aborda temas que já apareciam nos primeiros romances de Houellebecq, como a oposição entre ciência e espiritualidade e a exploração do lado mercantilista do sexo. Seu primeiro romance, "Extensão do Domínio da Luta", de 1994, lançado no Brasil pela ed. Sulina, aborda a decadência e o isolamento dos indivíduos nas sociedades de massa. Seu segundo romance, "Partículas Elementares" (Sulina), publicado em 1998, provocou polêmica e foi traduzido para 30 línguas. O livro é uma fábula cientificista pontilhada de comentários de ciência -da física quântica à biologia molecular.
"Plataforma", publicado pouco antes de 11 de setembro de 2001, termina com um atentado terrorista praticado por muçulmanos fanáticos. O livro foi acusado de fazer uma apologia do turismo sexual e retrata dois operadores do mercado de turismo que apostam na sistematização do turismo sexual. Trocam as gincanas à beira da piscina e os passeios ecológicos dos resorts de luxo pela liberação da prostituição. O livro causou forte reação de entidades contra a prostituição e a pedofilia.

(FOLHA DE SÃO PAULO)
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