Alemanha, ano zero
29/05/2009
Como ficou a Alemanha ao final da Segunda Guerra Mundial? Tão próximo, tão distante. Sabemos e já não sabemos. Que tal o depoimento de um jovem, hoje com 88 anos frescos e saudáveis, que participou da resistência francesa armada ao invasor nazista? Que tal a análise de um futuro grande pensador, na época um rapaz de 25 anos de idade? Que tal o primeiro livro, há décadas sem reedição, de um certo Edgar Morin, cujo sobrenome, hoje famoso, era somente um nome de guerra, um pseudônimo? Publicado em 1946, 'O Ano Zero da Alemanha', chega só agora ao Brasil, pela Editora Sulina, com tradução dos professores Edgar de Assis Carvalho e Mariza Bosco.
A conclusão do jovem judeu Morin era inapelável: 'Deixemos de lado certo número de polêmicas, hoje ultrapassadas, que tratam da definição do nazista. Não há dúvida de que havia gradações dentro do nazismo. Existiram nazistas ativos, nazistas formais e nazistas constrangidos (como foi o caso de inúmeros estudantes). Havia os que já eram nazistas antes de 1933 e os que se tornaram nazistas após 1937. Os americanos consideram os velhos e duros nazistas anteriores a 1937 como os mais perigosos. Muitos alemães tendem a considerar que os que se tornaram nazistas depois de 1937 são mais culpáveis, pois não tinham escusas para se deixar lograr pelas belas promessas e aderiram ao nazismo com conhecimento de causa, mesmo depois das leis de Nuremberg e das primeiras manifestações da política belicista de Hitler (...) O essencial é adotar um critério, mesmo imperfeito, que impeça os grandes nazistas e os ativistas de escaparem da reparação e das sanções'. E hoje, mais de 60 anos depois?
No prefácio à edição brasileira, Morin conta que aceitou ir para a Alemanha ao final da guerra como voluntário no Estado-Maior do Primeiro Exército. Num capítulo sobre a zona de ocupação soviética, minimizou a barbárie dos libertadores. Arrependeu-se: 'De qualquer forma, reconheço o meu erro, provocado não apenas por minha tendência de querer minimizar a crueldade da conquista soviética, mas também e, sobretudo, por minha inexperiência, visto que, sem ter jamais estuprado nem assistido a uma estupro, eu subestimava todo o horror que esse ato implicava'. Curiosamente esse capítulo foi expurgado da edição alemã. 'O Ano Zero da Alemanha' revela um mundo, um homem em construção, os conflitos ideológicos capazes de encobrir fatos e evidências. É um documento esplêndido sobre um tempo de tristeza infinita.
Parece um 'romance de não-ficção' do novo jornalismo americano. Ou a boa e velha literatura de um realista francês: 'Lembro-me de haver recolhido no interior da chancelaria de Hitler, no meio de documentos espalhados pelo chão, cartas assinadas de próprio punho pelo Führer atribuindo condecorações a soldados alemães e de ter contemplado a agonia do seu bunker. Eu era o único militar-turista na cidade fantasma...'. O livro é uma viagem documentada que permite conhecer a Alemanha devastada e o autor da obra na sua etapa de formação.
(Coluna de Juremir Machado da Silva no Correio do Povo / Porto Alegre / RS)

Link: www.correiodopovo.com.br

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