A realidade existe?
18/07/2003
Pensadores de cinco países , como Jean Baudrillard, Edgar Morin, Michal Helm, Barry Katz, Paula Sibilia e André Lemos, se reuniram no Rio de Janeiro para debater os cenários assustadores criados pela digitalização do mundo
A vida não passa de um programa que roda na mente das pessoas, que estão adormecidas em casulos. Elas na verdade sonham que existem, trabalham e amam, enquanto as máquinas que dominam o mundo se alimentam de sua energia.
Qualquer leitor que esteja em dia com os lançamentos do cinema terá identificado a referência à trilogia Matrix, dos irmãos Wachowsky. Mas o que pouca gente sabe é que a fronteira entre a realidade e a ficção científica é muito mais tênue do que parece. Teorias recentes afirmam que a própria natureza do universo é digital, e que tudo pode se reduzir ao código binário. As possibilidades abertas pelos avanços da biotecnologia e da teleinformática tornam perfeitamente plausível um horizonte de total compatibilidade entre a mente humana e a memória de um computador, bem como a criação de uma realidade inteiramente virtual, purificada das mazelas do mundo.
Para discutir as implicações assustadoras deste cenário, pensadores de cinco países, como Jean Baudrillard, Edgar Morin, Michal Helm, Barry Katz, Paula Sibilia e André Lemos, se reuniram durante três dias no Rio de Janeiro, onde participaram do seminário O Eu em Rede: A Subjetividade na Cultura Digital, promovido pela Universidade Cândido Mendes, com apoio da Unesco. Coincidentemente, visitou a cidade na mesma semana o matemático e filósofo australiano David Chalmers, para fazer uma conferência na UFRJ.
Estudioso dos mecanismos da consciência, Chalmers é um dos gurus da inteligência artificial e tem no currículo palestras para a CIA. Ele acha perfeitamente natural que, num futuro não muito distante, as pessoas escolham viver numa realidade paralela, se não estiverem satisfeitas com o mundo real. E vai além: ele acredita que os animais e até as máquinas podem ter uma consciência, e que esta pode ser traduzida numa linguagem matemática.
O sociólogo argentino Christian Ferrer enxerga essa perspectiva com um olhar crítico, mostrando-se mais interessado nas implicações éticas das conquistas tecnológicas. Ferrer reconhece que estamos vivendo um momento de mudança de paradigma: da mesma forma que no passado se negava a existência da alma nos negros, nos indígenas, nas mulheres ou nas crianças, é possível que passemos a admitir que também os computadores são dotados de uma alma, o que daria à máquina o mesmo status (ou “estatuto ontológico”, no jargão filosófico) de um ser humano. Isso já fora antecipado nos primórdios da Revolução Industrial, quando o Parlamento inglês aprovou uma lei que condenava à morte quem destruísse uma máquina. Uma vida por uma máquina: esta equivalência torna urgente uma reflexão sobre o descompasso entre o desenvolvimento da moral e da técnica em nossos tempos pós-modernos. E isso estaria relacionado a uma incapacidade crescente do homem suportar a dor:
– As promessas da rede informática e da biotecnologia transformaram o corpo humano num campo de experiências e estão modelando uma nova subjetividade, que sonha passar pela vida sem nenhum sofrimento, sem nenhuma dor. Ao mesmo tempo, aumentam as exigências por prazer e felicidade.
Ferrer afirma que hoje a evolução da tecnologia é muito mais rápida que a da arte, da moral e da política. Isto implica um drama nas relações entre técnica e moral, ainda mais num contexto em que a preocupação com o conforto e a compulsão ao consumo são os valores que prevalecem na sociedade.
Parece claro que o mundo está passando por uma reconfiguração. Os efeitos das profundas transformações provocadas pela cultura digital sobre a formação de identidades, as questões éticas e a variação de papéis sociais do indivíduo contemporâneo foram abordados pelas duas principais estrelas do seminário no Rio, os filósofos franceses Jean Baudrillard e Edgar Morin. Baudrillard, autor de ensaios sempre provocativos como A transparência do mal, A ilusão do fim e O crime perfeito, aproveitou para lançar seu novíssimo livro, Tower inferno, que analisa os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001. Uma curiosidade é que o pensador foi citado/ homenageado no primeiro filme da série Matrix, na cena em que o personagem Neo (Keanu Reeves) esconde seus programas piratas dentro de um exemplar do livro Simulacros e simulações.
Para Baudrillard, a aceleração das mudanças tecnológicas resultou num mundo sem referências, movido por fórmulas vazias, repetições incessantes das formas produzidas quando ainda existiam valores e referências da realidade. É o que ele chama de “simulacros”: a arte se tornou um simulacro da arte, a política um simulacro da política, e assim por diante.”Depois do ‘assassinato do real’, vivemos uma época de extermínio do diferente, do estranho, do ‘outro’” – diz Baudrillard. “Tentamos exorcizar a alteridade radical da morte por meio da terapia, da cirurgia estética, da clonagem, num sistema de identificação total entre todo mundo, de ‘metástase do mesmo’. E todos se transformam em atores do espetáculo total da realidade, como nos atos televisivos imediatos dos reality shows. Cada indivíduo é uma reprodução de um ‘eu genérico’, conectado em rede e em perpétuo feedback comunicacional. É o novo fundamentalismo do circuito integrado: o indivíduo sozinho já se torna massa. A diferenciação entre indivíduo e massa desapareceu”.
Outro aspecto delicado é que os critérios pragmáticos e até mesmo o vocabulário operativo da tecnologia se sobrepõem cada vez mais à reflexão sobre o sentido da vida. A eficácia prevalece sobre os conceitos de justo, certo e bom. O veterano e incansável Edgar Morin, que publica ensaios desde 1951, quando lançou O homem e a morte, e desde então vem participando de todos os debates que afetaram a sociedade européia, da contracultura dos anos 60 à globalização dos anos 90, tocou nesta questão, embora de forma menos pessimista que Baudrillard. Ele vê a digitalização como um produto do espírito humano:
– Hoje, o processo de planetarização não é somente objetivo, mas também subjetivo. Objetivamente, percebemos que tudo à nossa volta foi globalizado: comemos frutas brasileiras, usamos roupas chinesas, ouvimos rádios fabricados no Japão. Subjetivamente, cada indivíduo recebe “influxos do eu”, via rede, de todo o planeta. A inserção na rede produz um duplo espectral, um “ego virtual”, que no passado era representado pela alma. O problema é que nos acostumamos a falar de uma só realidade, aquela que apreendemos pelos sentidos, quando dentro da realidade existem vários níveis.
Cabe perguntar se não há um pouco de fantasia e exagero em alguns cenários desenhados pelos participantes do seminário. Afinal de contas, mais do que questões muito distanciadas da realidade não-digital em que a maioria da população ainda vive no mundo – basta pensar no exército imenso de excluídos que não têm acesso à comida, muito menos a computadores – chegou-se a colocar em dúvida a própria existência da realidade. Mas, como lembra Baudrillard, a questão não é nova, pois “saber se o real existe é uma dúvida tão velha quanto Platão”. Mais interessante, segundo ele, é pensar na assimilação pela cultura pop (à qual pertencem Matrix e outros filmes recentes) de um debate filosófico profundo. Baudrillard explica, com um ceticismo perturbador:
– A cultura pop hoje pode absorver até mesmo a análise crítica mais profunda. A reflexão pode ser integrada à mercadoria, e portanto pode ter o mesmo caráter de obsolescência da mercadoria. Como não existe mais a distância que permite a objetividade, o lugar da crítica desapareceu, e ela passou a funcionar como os signos acelerados das imagens. Decorre daí que o verdadeiro pensamento, hoje, não busca mais um discurso da verdade, tornando-se um pouco delirante.


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